Sobre a língua apurinã


Por Rogério Sávio Link

Apesar de meu interesse em relação às línguas indígenas, não tenho formação linguística. Sou indigenista, historiador e teólogo. E, como tal, preocupo-me com a manutenção da diversidade linguística. Desde agosto 2008, quando iniciei um trabalho de revitalização linguística e cultural junto aos Apurinã, comecei a estudar a língua desse povo e a pensar estratégias para que ela continuasse sendo utilizada entre as futuras gerações. É nesse contexto que o presente dicionário foi estruturado.
O “Wiki-dicionário Apurinã” segue a proposta de grafia desenvolvida pelos pesquisadores e pesquisadoras ligados ao Museu Paraense Emílio Goeldi. Nesse sentido, muitas das palavras registradas no banco de dados do dicionário também foram tomadas dos materiais didáticos e do dicionário da flora e fauna Apurinã elaborados por Ana Paula Brandão e Sidney da Silva Facundes. Há ainda outras propostas de grafias como a dos pesquisadores do Instituto Linguístico de Verão. Nesse mesmo sentido, também utilizo os trabalhos dos linguistas Cathie Aberdour e Wilbur Pickering vinculados a essa instituição. O trabalho dessa instituição também produziu uma versão do Novo Testamento na língua apurinã. Além disso, também não poderia deixar de mencionar os próprios Apurinã que tanto têm me ensinado sobre sua língua, cultura e modo de ser.
Sobre o dicionário apurinã, a entrada para o registro dos vocábulos privilegia a raiz das palavras e quando possível apresenta exemplos de utilização do mesmo. As palavras estão classificadas quanto ao tipo, gênero, número e tema. Abaixo segue um breve auxílio gramatical sobre a língua apurinã.



Alfabeto Apurinã
a, e, h, i, m, n, u, p, k, r, s, t, x, y, w
    a – atha (nós)
e – kerupa (quem é ela?)
h – hãty (um)
i – maiury (urubu)
m – miriti (caititu)
n – nuta (eu)
u – kukui (gavião)
p – anãpa (cachorro)
k – keta (atirar)
r – irary (queixada)
s – suty (veado roxo)
t – tata (umari)
x – xamyna (lenha, fogo)
y – uky (olho)
w – watxa (agora)
   


Os sons
O alfabeto apurinã é composto por cinco vogais: a, e, i, u, y. A vogal u tem um som intermediário entre u e o, às vezes soando de um jeito às vezes de outro. Já a vogal y tem um som equivalente ao ü do francês.
A sílaba tônica (forte) na língua apurinã está posicionada, via de regra, na penúltima sílaba de uma palavra. Quando a palavra recebe um sufixo, a sílaba tônica também se desloca. Ex.: pápa, papáry (tu buscas).
Comparado ao português, o alfabeto apurinã é mais econômico prescindindo de algumas letras (b, c, d, f, g, j, l, o, q, v, z). O fato do alfabeto não necessitar dessas letras, não significa que o som não possa estar presente. Podem ser encontradas várias palavras que apresentam sons das letras b, g e d. Apesar disso, não há necessidade de usar letras a mais para representar esses sons, pois eles sempre ocorrem depois de sons nasais como ã, ẽ, ĩ, ỹ, ũ diante de p, k e t.
    ĩp – imb (ĩpurã, soa como imburã)
ỹk– ng (pupỹkary, soa como pupyngary)
ũt – nd (anũtinaky, soa como anundinaky)
a – a
e – e
i – i
u – u/o (som intermediário)
y – ü
   

 

Concordância Pronominal do Sujeito e do Possessivo
    1ª pessoa singular: n-/ni-
2ª pessoa singular: p-/pi-
3ª pessoa singular masculino: y-
3ª pessoa singular feminino: u-/u-
1ª pessoa plural: a-/ã-
2ª pessoa plural: h-/hỹ-
3ª pessoa plural comum: y-
   


Concordância com o Objeto Direto e Indireto
    1ª pessoa singular: -nu
2ª pessoa singular: -i
3ª pessoa singular masculino: -ry
3ª pessoa singular feminino: -ru
1ª pessoa plural: -wa (também reflexivo)
2ª pessoa plural: -i
3ª pessoa plural comum: não tem
3ª pessoa plural comum distributivo: -na
   

 

Exemplo de concordância com o objeto direto e de estrutura frasal em apurinã:
  1) Kyky takaperu kumyaru (O homem plantou a macaxeira).
2) Kyky kumyaru takape (O homem plantou a macaxeira).
3) Kumyaru takape kyky (O homem plantou a macaxeira).
4) Kumyaru takapery kyky (A macaceira plantou o homem). Frase ilógica.
 



Conjugação Verbal Simple (apa – buscar, pegar)
  passado presente futuro  
  (nuta) napape (napapery)
(pitha) papape
(ywa) yapape
(uwa) uãpape
(atha) ãpape
(hỹtha) hãpape
(ynawa) yapape
(nuta) napa (napary)
(pitha) papa
(ywa) yapa
(uwa) uãpa
(atha) ãpa
(hỹtha) hãpa
(ynawa) yapa
(nuta) napaku (naparyku)
(pitha) papaku
(ywa) yapaku
(uwa) uãpaku
(atha) ãpaku
(hỹtha) hãpaku
(ynawa) yapaku
 

 

Referências

ABERDOUR, Cathie. Referential devices in apurinã discourse. In: FORTUNE, David L. (Ed.). Porto Velho Workpapers. Brasília: Summer Institute of Linguistics, 1985. p. 43-91. Disponível em: <http://www.sil.org/americas/brasil/SILbpub.html>.
Bíblia em Apurinã. Disponível em: <http://worldbibles.org/language_detail/eus/apu/Apurin%C3%A3>.
BRANDÃO, Ana Paula; FACUNDES, Sidney da Silva. Dicionário ilustrado da flora e fauna Apurinã. Material não publicado. 2005.
BRANDÃO, Ana Paula; FACUNDES, Sidney da Silva. Estudos comparativos do léxico da fauna e flora Aruák. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 2, n. 2, p. 109-131, mai-ago. 2007.
BRANDÃO, Ana Paula; FACUNDES, Sidney da Silva; et alli. Vamos escrever a língua apurinã. Material não publicado. s/d.
FACUNDES, Sidney da Silva. Estratégias de relativização em Apurinã (Aruák). Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 1, n. 1, p. 71-85, jan-abr. 2006.
FACUNDES, Sidney da Silva. On argument expression in Apurinã (Maipure). In: VOORT, Hein van der; KERKE, Simon van de (Eds.). Indigenous Languages of Lowland South America. Leiden: Research School of Asian, African, and Amerindian Studies (CNWS), 2000. p. 265-296.
FACUNDES, Sidney da Silva. The language of Apurinã people of Brasil (Maipure/Arawak). Tese de Doutorado. Buffalo: University of New York, 2000.
PICKERING, Wilbur N. Apurinã Grammar. Anápolis: Associação Internacional de Linguística,. 2009 [1971]. Disponível em: <http://www.sil.org/americas/brasil/SILbpub.html>.
PICKERING, Wilbur N. Relativização em Apurinã. Série Linguística Nº 7. Brasília: Summer Institute of Linguistics, 1977, p. 127-140. Disponível em: <http://www.sil.org/americas/brasil/SILbpub.html>.