Sobre os Apurinã


O povo Apurinã faz parte da família linguística Aruak e autodenomina-se Pupỹkary. Em 2010, o IBGE contabilizou um total de 896.917 indivíduos que se autodeclararam como Apurinã. Eles dividem-se em dois troncos/clãs exogâmicos patrilineares: Xuapurinyry e Miutymãnety. A linhagem é passada de pai para os filhos e o casamento correto ocorre entre esses dois troncos. Os nomes próprios em Apurinã já indicam a qual clã o indivíduo pertence. Em relação aos pronomes de tratamento, os Apurinã chamam aqueles que pertencem ao mesmo grupo de nepyry (meu irmãos de clã ou primo) e aqueles que pertencem ao outro clã de numinapary (meu cunhado).

Tradicionalmente, os grupos organizam-se totemicamente e restringem sua alimentação em função dos totens. Os animais que se referem ao totem podem ser consumidos apenas pelo grupo oposto. Assim, os Xuapurynyry não comem iũku (nambu-galinha), tsãkary (nambu-azul), maiũpyra (nambu-encantado), pathãaryky (nambu-relógio) e mãkukua (macucau, jaó). Os Miutymãnety, por sua vez, não comem miriti (caititu), kapixi (quati) e kutsũpi (sarapó). É possível traçar uma relação entre os totens. No caso dos Xuapurynyry, todos são aves pertencentes aos gêneros Tinamus e Crypturellus. No caso dos Miutymãnety, a relação não é tão aparente, pelo menos para um observador de fora, pois são espécies totalmente diferentes. Uma interpretação possível é que todos teriam características onívoras e que podem ser encontrados procurando alimentos em meio ao barro. O sarapó, que é a espécie mais diferente por se tratar de um peixe, alimenta-se de pequenos vermes, lodo e plâncton e pode ser pescado com a mão em meio ao barro. Na classificação faunística apurinã, portanto, essas espécies fazem parte de um mesmo grupo e que seria oposto ao primeiro grupo das aves.

Além das divisões em troncos ou clãs, os Apurinã também se subdividem em grupos familiares designados por um animal: Iũpiryakury (família do japó), Upitaakury (família do tambuatá de cabeça chata), Hãkytywakury (família da onça), Exuwakury (família do tamanduá bandeira), Ximakury (família do peixe), Kyryakury (família do rato), Kamỹyryakury (família da arara), Kãiriwakury (família do mambira, tamanduá-colete), Kemaakury (família da anta), Sutyakury (família do veado roxo), Kureruakury (grupo do papagaio, uma espécie não identificada aqui). No entanto, devido ao intenso contato, a nomeação dos grupos familiares já não é mais muito conhecida. A antropóloga Juliana Shiel (2004: 65s) fala ainda em Ximakyakury (povo do peixe), Kaikyryakury (povo do jacaré), Wawakury ou Wawatuwakury (povo do papagaio).

Os Apurinã ocupavam, tradicionalmente, as margens do Médio Rio Purus e seus afluentes, desde o Sepatini até o Iaco, além dos rios Acre (Akyry) e Ituxi (Ikyry, Tuxini). Atualmente, estão dispersos em 27 terras indígenas ao longo do Rio Purus e seus afluentes, na Bacia do Rio Madeira, como é o caso dos Apurinã que vivem na Terra Indígena Torá, nos municípios de Manicoré e Humaitá ou ainda no Solimões, nos municípios de Manaquiri, Manacapuru, Beruri, e Anori. Além desses municípios, os Apurinã podem ser localizados nos municípios de Tapauá, Lábrea, Pauini e Boca do Acre, na Bacia do Rio Purus. Várias famílias vivem ainda em espaços urbanos, em áreas não demarcadas e em áreas de outros povos indígenas. Conforme uma pesquisa realizada pela pastoral do CIMI do Acre em 2009, foram contabilizados 416 indivíduos vivendo na cidade de Rio Branco. Essa cifra equivalia a 49,29% do total dos indígenas que viviam na capital. Além disso, há ainda mais ou menos 60 indivíduos na aldeia Mawanat, na Terra Indígena Roosevelt em Rondônia, que para lá migraram em 1983 quando um índio Munduruku e sua esposa Apurinã, funcionários da FUNAI, foram transferidos para Cacoal, Rondônia.



Referências

KROEMER, Gunter. Cuxiuara, o Purus dos indígenas: Ensaio etno-histórico e etnográfico sobre os índios do Médio Purus. São Paulo: Loyola, 1985.

LINK, Rogério Sávio. Vivendo entre mundos: o povo Apurinã e a última fronteira do Estado brasileiro nos séculos XIX e XX. Tese de doutoramento. Porto Alegre: UFRGS-PPGH, 2016.

SCHIEL, Juliana. Tronco Velho: Histórias Apurinã. Tese de doutoramento. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2004.